Aos meus pacientes:

Algumas pessoas solicitando atualização - do ponto de vista médico - sobre o COVID-19, então resolvi postar hoje.

Baseado nos dados até 19h de 18/3 do MS e do SCIH do H. Albert Einstein


Ate o momento parecem ter mais de 428 casos confirmados de coronavírus no BR.

Digo parece, pois esse numero pode ser muito maior. O que acontece é o seguinte:


Nessa semana mudou o criterio para notificação de caso suspeito. Antes, qualquer pessoa voltando de viagem com sintomas respiratorios ou febre entrava como caso suspeito, e era notificado. Tambem, aqueles apenas com sintomas respiratorios que relatavam contato com caso suspeito era notificado. Nada do que era relatado (viagem, contato com suspeito) tinha que ser checado, apenas notificado.

A capacidade de testar os pacientes saturou e, com a primeira transmissão interpessoal dentro do Brasil, mudou o criterio de notificação. Agora, só casos graves, internados, são notificados.


Perderemos o parâmetro da infectividade e letalidade da doença.


Só os internados e, por consequencia, os mais graves, serão notificados. Os mais leves (até 80% dos casos) não serão mais reconhecidos como COVID-19, perderemos este diagnostico.


Existiam várias correntes de pensamento no meio médico. Algumas, favoráveis a testar todos e ampliar o conhecimento sobre a doença às custas da eventual falta do exame para os mais graves caso haja procura ampla e desnecessária ao teste diagnostico em regime de urgência. Outras, recomendando testar só os graves, para dar nome e sobrenome à causa do problema internado no leito "X" do hospital e proteger a equipe assistente, às custas da detecção aquém da realidade na população e falta de dados fidedignos sobre o comportamento do vírus no BR.


Cada uma das estratégias de testagem não é necessariamente certa ou errada, e estamos decidindo com base em consenso de especialistas. Portanto, a segunda corrente está na frente agora, após a primeira corrente ter predominado nas primeiras duas semanas de disponibilidade do teste.


Sim, sabemos que não há tratamento especifico para a doença.  Aí temos que lembrar que temos instituições com diferentes perfis de pacientes.


Tem hospitais gerais e hospitais especificos. Existem até redes de saúde só para crianças, só para idosos.

Existe o SUS e o privado.


Preparem-se para muita desinformação e desencontro nos proximos dias. Surgirão muitos boatos, textos apocalípticos, de teoria da conspiração, de negação.

Lembrando que os estágios do luto são cinco: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Estamos ainda entre negação e raiva, e passando em alguns Estados e cidades, para a barganha (o quanto vale a pena perder para controlar a doença?)


A aceitação ainda está longe, ainda há um longo caminho de conhecimento, educação e disseminação de informação.


Para enfrentarmos a doença a nivel pessoal, esqueça numero de casos suspeitos, confirmados, internados, óbito. Esses numeros estão distorcidos antes de serem analisados. 


Quando mudou o criterio de notificação, deixamos de notificar, cada medico, 20 casos ao dia, no minimo. 

Ja contei 1h30 por dia apenas preenchendo ficha de notificação, e agora nao preenchemos mais.

Ainda tem 5 a 7 mil testes rodando nos laboratorios particulares graças ao amplo criterio antigo, porem, após o resultado destes, o numero de casos novos deve cair, pois só os internados serão diagnosticados.

Muita gente que mandamos ir para casa direto do pronto atendimento poderá ter o virus e nunca ficar sabendo.


Também eu, meus colegas, os funcionarios do hospital, as pessoas que trabalham ao redor do hospital, os moradores do bairro, seus parentes de outra cidade que vieram visitar no final de semana, etc... talvez nunca saberemos a real dimensão em nossa população.


Por isso, o que eu não vou fazer:

Não vou ficar ansioso com a contagem de casos suspeitos ou confirmados nos próximos dias. Tem muito exame antigo rodando, e provavelmente 80% destes pacientes já está melhor ou curado. Na minha opinião, é um massacre psicologico ficar em cima dessa contagem.

Não vou ficar desesperado por uma cura, uma vacina, um remedio milagroso a ser anunciado nos proximos dias por uma companhia americana ou japonesa, pois pode se revelar um fracasso. Temos que ser realistas.


Infelizmente, é uma pandemia, e o alvo dela são idosos com doenças cardiacas e pulmonares. 

O melhor que podemos fazer é ficar em casa o quanto puder seguindo as recomendações governamentais, não pensando em nós, mas nos outros. Os doentes suscetíveis.


Estamos conhecendo a doença ainda, como se comporta na população brasileira. Por ora, melhor não dar chance ao azar. Depois, em algum momento, voltaremos a vida normal. 


Infelizmente, sim, haverão mais noticias de óbito pela doença, assim como sabemos que o H1N1, sarampo, pneumonia bacteriana, matam diariamente. 

Lamentável, e isso tem que nos lembrar de fazermos nossa parte. Colaborar com higiene e isolamento voluntário, sem entrar em pânico ou modo apocalipse. Uma hora, que ninguem sabe quando vai ser, os casos vão diminuir e o terror vai passar, e pode ser que antes disso tomemos mais alguns sustos. 


Temos que ser fortes psicologicamente. Haverão boatos, haverão audios e mensagens no whatsapp sobre numero de internados, numero de pacientes em estado grave, numero de pacientes intubados, numero de obitos, que o famoso X está infectado, que o politico Y está com sintomas, etc... Tenho certeza que as pessoas que encaminham isso tem boa intenção, mas talvez isso mais atrapalhe do que ajude. O que eu posso fazer como médico e cidadão estou fazendo, faça você também, mesmo que seja ficar em casa, e se todos fizermos nosso dever será menos traumático.


Sairemos mais fortes dessa, como sociedade, se ao sobrevivermos, alem do vírus, ao massacre psicológico e burnout causado por uma situação de crise humanitária e financeira, e ao final tivermos a consciência limpa de termos pensado na sociedade, naquele que não conhecemos e de termos ressignificado a presença das pessoas que amamos em nossas vidas.


Dr. Marcelo Bettega é cardiologista e clínico geral do Instituto do Coração da FMUSP e do Hospital Israelita Albert Einstein. 


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*Texto exposto neste link não representa posição oficial ou recomendação de nenhuma instituição de saúde, sendo de minha responsabilidade e visando população não-médica.