Algumas vezes, basta um simples olhar para diagnosticarmos condições clínicas importantes. 

Nesse sentido, vale muito a formação e experiência do médico.

A verdadeira medicina está nos detalhes!

Familiarize-se com algumas dessas alterações abaixo:


1) Sinal de Frank: Prega diagonal nas orelhas, descrita pela primeira vez em 1973 por Dr. Sanders T. Frank, como um marcador de doenças das coronárias. Esta alteração faz parte de uma coleção de sinais dermatológicos  que poderiam auxiliar no diagnóstico precoce de doenças cardíacas (ver abaixo xantelasma). O embasamento teórico utilizado por Frank decorre de um estudo em que se verificou que 95% dos pacientes com tal prega apresentavam um ou mais fatores de risco para coronariopatias, incluindo tabagismo, hipertensão arterial sistêmica, síndrome metabólica, dietas ricas em colesterol, gorduras saturadas e sódio e, pobres em fibras evitaminas. O sinal de Frank é mais específico e sensível para coronariopatias em pessoas mais jovens, já que à medida que o indivíduo envelhece ocorre enrugamento progressivo da pele, com maior probabilidade do surgimento de pregas cutâneas no rosto, pescoço e orelhas.

Fonte: RODRÍGUEZ-LÓPEZ, Claudia et al. Earlobe Crease Shapes and Cardiovascular Events. The American Journal of Cardiology, v. 116, n. 2, p. 286-293, 2015.


2) Estase jugular: A veia jugular externa ingurgitada pode ser observada com o paciente a 30 ou 45 graus de decubito, ou seja, quase sentado. Como normalmente não observamos esta estrutura anatômica, o fato de estar visível à inspeção do paciente traduz uma dificuldade do coração direito (atrio e ventriculo direitos) de bombear o sangue em direção aos pulmões ou ainda um retorno de sangue do pulmão, que já está cheio de liquido, devido às camaras esquerdas estarem muito fracas. Cabe ao médico diferenciar entre insuficiência cardíaca direita ou esquerda e indicar o tratamento adequado. Ainda, a insuficiencia cardíaca do lado direito pode ser causada por problemas pulmonares, como bronquite ou enfisema graves e embolia pulmonar crônica. As possibilidades diagnósticas são imensas! Tomografia, ecocardiograma, cateterismo, exames de sangue muito específicos são recursos que ajudam a identificar a causa do problema. Mas, interessante o fato de tudo começar com um simples olhar, talvez até mesmo pelo próprio paciente ou seus familiares.

Fonte: Accorsi, Tarso Augusto Duenhas; Tarasoutchi, Flávio. Semiologia Cardiovascular. In: Martins, Mílton de Arruda; Carrilho, Flair José; Alves, Venâncio Avancini Ferreira; Castilho, Euclides Ayres de; Cerri, Giovanni Guido (eds). Clínica Médica [2ed. ampl. rev.], v.2: doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, emergênciais e terapia intensiva. BARUERI: Manole, 2016. p.6-43.


3) Xantelasma: São placas e lesões planas e amareladas encontradas nos olhos, principalmente nas pálpebras, geralmente de forma simétrica. A presença do xantelasma não é contagiosa, já que trata-se de uma resposta do organismo à maior quantidade de colesterol circulante, e é mais frequente em adultos que possuem dislipidemia, ou seja, colesterol alto.  A presença de altos níveis de LDL (o chamado colesterol "ruim") é a principal alteração implicada na presença de xantelasma. Existem outras formas de depósito de gordura na pele, inclusive em tendões, chamadas de xantomas, mas estas podem passar mais desapercebidas. Importante lembrar que fazem quase 40 anos que sabemos que altos níveis de colesterol são diretamente relacionados com maior incidência de infarto, derrame cerebral, insuficiência cardíaca e óbito. Ah, em relação à visão, apesar de não causar risco, o xantelasma pode causar incômodo, por isso oftalmologistas podem sugerir a remoção do xantelasma, que é feita por meio de cirurgia ou por meio de técnicas que destroem a lesão,com ácidos, laser ou eletrocoagulação.

Fonte: Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, et al. Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017. Arq Bras Cardiol 2017; 109(2Supl.1):1-76.