Ora, se, de acordo com os fatores de risco clássicos, que já apresentamos, quem não se encaixa no perfil acima está livre, certo?

Se o mundo fosse estático, e o corpo humano imutável, aquele estudo da década de 1970 teria resolvido todos os nossos problemas em relação a Cardiologia. Estariamos livres de todos os problemas com aspirina e estatinas (remédio para colesterol).

Hoje, estamos conectados o tempo todo sem necessariamente estarmos acompanhados. Para que esse salto digital acontecesse, o homem teve que se aglomerar em grandes megalopoles e viver cada vez mais estressado, dormindo menos e pior.

Percebeu o ciclo vicioso?
Mais estresse
Mais poluição
Sono ficou pior
Aumentou incidência de depressão e transtornos ansiosos!

Acredite se quiser - a poluição do ar é um dos novos fatores de risco cardiovasculares. O American Cancer Society Cancer Prevention Study II, com mais de 450 mil pacientes em registro, verificou risco 20% de doença cardiovascular em áreas com concentração aumentada de matéria particulada - devido a trânsito intenso e área industrial situada perto às cidades - A cidade de São Paulo tem exatamente este perfil. 

Outra constatação recente diz respeito a saúde mental, cada vez mais preocupante. Depressão e ansiedade estão ligadas a aumento de infarto e morte súbita (estudo INTERHEART). Outro estudo com mulheres acima de 50 anos detectou aumento de mais de 50% do risco de morte por causa cardíaca naquelas que apresentavam depressão no inicio do acompanhamento. Os dados são alarmantes.

Por fim, a qualidade do sono. Já se sabe que a apnéia do sono é cada vez mais associada ao aparecimento de hipertensão, sendo obrigatorio saber se o paciente hipertenso tem historico de ronco com apnéia a noite. Agora, devemos valorizar ainda mais o questionário de sono pensando até mesmo em evento cardiaco - infarto e morte. Estudo com mais de 400.000 pacientes publicado na revista mais relevante de Cardiologia do mundo descreveu risco 20% maior de infarto em pessoas que dormiam apenas 6h, comparados com aqueles que dormiam 9h, ajustado para risco genético de doença coronariana. 

O que foi exposto acima é, no mínimo, interessante, e demanda maior investigação. Porém, faz todo o sentido em nossa sociedade da década de 2020, conectada, ansiosa e com problemas para dormir. 
Vale a pena marcar aquele check-up e cuidar da saúde, pois a era dos fatores de risco "invisíveis" veio para ficar...

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Fontes: 

Jerrett M, Burnett RT, Pope CA 3rd, et al. Long-term ozone exposure and mortality. N Engl J Med. 2009;360(11):1085. 

Graham N, Ward J, Mackay D, Pell JP, Cavanagh J, Padmanabhan S, Smith DJ. Impact of major depression on cardiovascular outcomes for individuals with hypertension: prospective survival analysis in UK Biobank. BMJ Open 2019;9:e024433.

Daghlas I, Dashti HS, Lane J, Aragam KG, Rutter MK, Saxena R, Vetter C. Sleep duration and myocardial infarction. J Am Coll Cardiol 2019;74:1304–1314.

Rosengren A, Hawken S, Ounpuu S, et al. Association of psychosocial risk factors with risk of acute myocardial infarction in 11119 cases and 13648 controls from 52 countries (the INTERHEART study): case-control study. Lancet. 2004;364(9438):953.